O NASCIMENTO DE JESUS
Reflexão a partir do capítulo segundo de São Lucas

“Enquanto estavam em Belém
se completaram os dias para o parto
e Maria deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2,6).

Os pais de Jesus, José e Maria, moravam tranquilamente nas montanhas de Nazaré. José trabalhava na sua modesta oficina de carpinteiro; Maria se ocupava na lida doméstica e na preparação das roupinhas para o filhinho, que em breve iria nascer.

De repente uma notícia alarmante se espalhou de que o imperador romano, Cesar Augusto, ordenara um recenseamento para todo o reino. Esse era um procedimento que acontecia de 14 em 14 anos. Na província da Síria e em toda a Palestina a execução das ordens imperiais estava a cargo de Quirino. Consoante o costume da época, todos os cidadãos(ãs), deveriam se dirigir à terra natal afim de se alistar nos registros públicos.
Obedientes, José e Maria se deslocam da Galileia para a Judeia. Lá vai Maria, lá vai José… Ela montada num jumento e ele à pé… Transpondo vales e montanhas, poeira, sol e calor… Num admirável exemplo de cidadania, simplicidade

Era, talvez, o declinar, do quarto dia de viagem, quando os dois avistaram as primeiras casas de Belém, banhadas pelos últimos raios do sol poente. Belém está distante umas duas horas para o sul de Jerusalém, à margem da estrada que conduz a Hebron. O casario derrama-se com pitoresca irregularidade sobre duas colinas entre uma ligeira depressão de terreno. Ao derredor vicejam abundantes vinhedos e oliveiras; e para além se desdobram as férteis campinas de Beth-Sahur, normalmente pontuadas de ovelhas e cabras pastando, sob os olhares atentos de humildes pastores.
Belém quer dizer: “casa do pão”, ou seja: celeiro de trigo, pelo fato de haver muitos trigais que cobrem todo o seu entorno. Em uma das colinas abre-se uma caverna com a entrada para a banda do leste. No final daquela jornada de viagem, os dois solitários viajantes, chegam a Belém. Ela, Maria, montada no paciente jumentinho; e José, seu fiel esposo à frente, cajado na mão, guindo a montaria, exausto de fadiga, com o rosto coberto de poeira e os lábios a arderem de sede.
Foram à procura de um albergue, um ranchinho, um lugar onde pudessem passar a noite. Mas, por mais que o pobre José se empenhasse, por mais que batesse de porta em porta, por mais que suplicasse e fizesse ver a necessidade física de descanso para a sua esposa grávida, não encontrou lugar nenhum. Só negativas! “Está tudo lotado”, “não adianta insistir!”… Que situação, que menosprezo, que falta de sensibilidade humano-fraterna caracterizava aquela gente sem caridade! “E JESUS VINHA AO QUE ERA SEU, MAS OS SEUS NÃO O RECEBERAM!” (cf. Jo 1, 10-11).
Belém regurgitava de forasteiros, atraídos pelo recenciamento. Todas as hospedarias abarrotadas de peregrinos. Só mesmo a custo de ouro talvez pudesse se obter ainda algum modesto agasalho; mas os dois viandantes de Nazaré eram pobres…
Cabisbaixos, Maria e José abandonaram a inóspita povoação e foram em demanda de uma caverna, bastante espaçosa, que talvez já era conhecida por José desde tempos passados. Os pastores da vizinhança haviam construído ali uma espécie de cobertura de palha seca e engendrado algumas manjedouras destinadas aos animais domésticos que se refugiavam na espelunca em dias de chuva e noites de inverno…
Uma tradição antiquíssima tinha como provável certeza que nesse mesmo local se erguera, outrora o castelo real do rei David, e a gruta servia de estribaria ao gado.
Nessa caverna, o santo casal, Maria e José se recolheram, sob a luz pálida de luma lamparina, no silêncio da noite, sabendo que levavam consigo o SALVADOR DO MUNDO, aquele que por amor da humanidade se tornara criança, frágil, humilde e pobre… Por isso unidos aos sentimentos de JESUS que logo ia nascer, suportavam sem queixas, nem murmurações todos os incômodos e o menosprezo por parte dos “bethlehemitas”.
A noite avançava rápida… As luzes de Belém, pouco a pouco se apagam. Lá nas alturas as estrelas da meia-noite, cintilam serenas, contemplando a terra envolta em silenciosa escuridão… José, arruma restos de palhas secas no chão da caverna, para servir de leito à esposa e retira-se a uma pequena dependência lateral da gruta, e, de exausto, cai num sono profundo…
Maria, permanece acordada, sabendo que aquela é a noite das noites da História. Sabe que é chegada a hora tão ardentemente suspirada por mais de quarenta séculos. Sabe que está chegando o último momento daqueles últimos nove meses, desde o misterioso anúncio do Anjo Gabriel, ao trazer-lhe a mensagem celeste, na casinha de Nazaré. Ajoelha-se sobre a palha e entrega-se à oração, olhos para o céu, num êxtase de amor inefável!… Nesse clima de contemplação, eis que de repente, refulge pela escuridão da gruta uma luz suavíssima, e sobre a orla do seu manto jaz uma criancinha, tão linda, tão pura, tão bela como as primícias da aurora! Trêmula de alegria e comoção toma nos seus braços o lindo nenezinho, aconchega-o, carinhosamente, com todo o pudor dum coração de Virgem e Mãe. Envolve-o em faixas de linho branco e coloca-o dentro de uma das manjedouras. Em seguida ajoelha-se em profunda adoração, ao pé desse sacrário improvisado… José, atraído pelo extraordinário clarão, chega e também se ajoelha, transido de amor e de júbilo, adora o Verbo Eterno que se fizera carne e habitava entre nós.
O peregrino que hoje, mais de 2.000 anos após aquela noite bendita, visita a gruta de Belém, encontra erguido por cima da mesma, um templo histórico-secular: A Basílica da Natividade. Debaixo do altar se acham suspensas inúmeras lâmpadas, sempre acesas, iluminando uma grande estrela de prata encastoada no pavimento de mármore. Em torno dessa estrela, simbolizando a luz do mundo que despontou à meia-noite, fulgura a inscrição eternamente memorável:
“HIC DE VIRGINE MARIA IESUS CHRISTUS NATUS EST”
(Aqui nasceu da Virgem Maria Jesus Cristo)

Pe. Valdemar Pereira dos Santos
Salvador, dezembro de 2018